Uma Fortaleza Esquecida da Cidade Baixa e Testemunha da História de Salvador
Apresentação
O Forte de Santo Alberto, popularmente conhecido como Forte da Lagartixa, é uma das fortificações históricas menos conhecidas de Salvador, embora seja uma das mais antigas da cidade. Localizado na região de Água de Meninos, às margens da Avenida Jequitaia, o forte integra o sistema defensivo colonial que protegia a entrada da Baía de Todos os Santos e o antigo ancoradouro da Cidade Baixa. [1][2]
Atualmente, muitos moradores passam diariamente pela Avenida Jequitaia sem perceber a existência da fortificação, parcialmente escondida pela urbanização e pelas transformações ocorridas na região portuária ao longo do século XX. [1]
História
A origem do Forte de Santo Alberto remonta ao final do século XVI.
Os registros históricos indicam que sua construção ocorreu entre 1590 e 1610, a partir da antiga Torre de São Tiago, estrutura defensiva que existia no local desde os primeiros tempos da colonização portuguesa. [2]
Inicialmente conhecido como Reduto ou Estância de Santo Alberto da Praia, o forte tinha a função de proteger a faixa litorânea de Água de Meninos e auxiliar na defesa do acesso marítimo à cidade de Salvador. [2]
Durante a Invasão Holandesa de 1624, o forte foi ocupado pelas tropas invasoras, retornando posteriormente ao controle português após a reconquista da cidade em 1625. [2]
A Antiga Torre de São Tiago
Uma das maiores curiosidades históricas do forte está relacionada à desaparecida Torre de São Tiago.
Vestígios arqueológicos dessa estrutura foram descobertos durante trabalhos de restauração realizados no final do século XX. A torre teria sido inspirada na Torre de São Tiago, localizada em Braga, Portugal. [1][2]
Hoje, parte desses vestígios permanece preservada sob o terrapleno da fortificação. [2]
Origem do Nome “Lagartixa”
O apelido Forte da Lagartixa surgiu no século XIX.
Segundo registros históricos, a denominação faz referência a um tipo específico de canhão conhecido popularmente como “lagartixa”, que ficava instalado sobre suas muralhas. [2]
Com o passar do tempo, o apelido tornou-se mais conhecido entre a população do que o próprio nome oficial da fortificação. [2]
Participação na Independência da Bahia
O Forte de Santo Alberto também possui importância na história da Independência do Brasil na Bahia.
De acordo com registros históricos, foi dele que partiu o tiro de canhão que autorizou o embarque das tropas portuguesas comandadas pelo general Inácio Luís Madeira de Melo, derrotadas pelos baianos em 2 de julho de 1823. [2]
Esse episódio marcou simbolicamente o fim do domínio militar português em Salvador e tornou-se um dos momentos mais importantes da história baiana. [2]
Arquitetura Militar
A estrutura atual do forte foi consolidada em 1694, apresentando características típicas das fortificações coloniais portuguesas. [2]
Entre seus elementos arquitetônicos destacam-se:
- Planta irregular adaptada ao terreno;
- Torreão circular;
- Muralhas de pedra e cal;
- Canhoneiras voltadas para a baía;
- Terrapleno para artilharia. [2]
Embora menor que fortificações como Monte Serrat ou São Marcelo, o Forte da Lagartixa desempenhava papel estratégico na defesa da cidade.
O Forte e as Transformações Urbanas
Originalmente construído à beira-mar, o Forte de Santo Alberto perdeu sua relação direta com a água após as obras de ampliação do Porto de Salvador e os grandes aterros realizados na região da Jequitaia durante o século XX. [1][2]
Hoje, a fortificação encontra-se afastada da linha costeira, situação que surpreende muitos visitantes ao conhecerem sua história. [1]
Endereço
Forte de Santo Alberto (Forte da Lagartixa)
📍 Avenida Jequitaia, s/n
Água de Meninos
Cidade Baixa
Salvador – Bahia
CEP 40460-130 [1][2]
Curiosidades Documentadas
Um forte que ficou longe do mar
Originalmente construído na praia, o forte foi separado da costa pelos aterros que expandiram a área portuária de Salvador. [1][2]
Mais antigo do que parece
Suas origens remontam ao final do século XVI, tornando-o uma das fortificações mais antigas da capital baiana. [2]
Participação no 2 de Julho
Foi do Forte da Lagartixa que partiu o tiro de canhão associado ao embarque das tropas portuguesas derrotadas na Independência da Bahia. [2]
Fortificação pouco conhecida
Apesar de sua relevância histórica, é um dos fortes menos visitados e menos conhecidos de Salvador. [1][5]
Importância para a Cidade Baixa
O Forte de Santo Alberto é um importante patrimônio histórico da Cidade Baixa.
Sua história está ligada à defesa colonial de Salvador, à ocupação holandesa, à Independência da Bahia e ao desenvolvimento portuário da região de Água de Meninos.
Ao lado da Feira de São Joaquim, do Mercado do Peixe, do Terminal Ferry-Boat e do Porto de Salvador, a fortificação integra um território que concentra séculos de história marítima, comercial e militar da capital baiana. [1][2]
Referências Bibliográficas e Documentais
[1] Bahia Terra. Forte de Santo Alberto: o forte que hoje fica longe do mar. Disponível em: https://www.bahiaterra.com/posts/forte-de-santo-alberto-salvador. Acesso em: 08 jun. 2026. (Bahia Terra)
[2] Wikipédia. Forte de Santo Alberto. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_Santo_Alberto. Acesso em: 08 jun. 2026. (Wikipédia)
[3] Arquipélagos. Salvador da Bahia, Forte de Santo Alberto (1779). Disponível em: https://www.arquipelagos.pt/imagem/salvador-da-baia-forte-de-santo-alberto-1779/. Acesso em: 08 jun. 2026. (Arquipélagos)
[4] Wikimedia Commons. Forte de Santo Alberto, Salvador. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Forte_de_Santo_Alberto_Salvador_20211003-6786.jpg. Acesso em: 08 jun. 2026. (Wikimedia Commons)
[5] Bahia Terra. 9 fortes de Salvador para conhecer. Disponível em: https://www.bahiaterra.com/posts/fortes-de-salvador. Acesso em: 08 jun. 2026. (Bahia Terra)


Também conhecido como Forte da Lagartixa, foi construído entre 1590 e 1610. Possuía planta circular, uma torre e acesso por ponte levadiça. Era denominado São Tiago de Água de Meninos. Foi remodelado para ganhar maiorpoder de fogo. No século XIX, já apresentava a atual forma hexagonal. O forte, que ganhou este nome após a destruição de fortaleza homônima, teve participação importante nas lutas contra as invasões holandesas e pela Independência da Bahia.
Os séculos XVII e XVIII
A sua edificação remonta à antiga Torre de São Tiago, cujos vestígios arqueológicos foram descobertos ao final do século XX, em torno da qual foi erguida muralha e aterro (1590). Concluído em 1610 sob a invocação de Santo Alberto, encontra-se cartografado por João Teixeira Albernaz, o velho (Planta da Cidade de Salvador, 1616) como Reduto ou Estância de Santo Alberto da Praia, artilhado com duas peças.
Um manuscrito depositado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (L. 67 Ms. 1236), anónimo e sem data, mas do início do século XVII, possívelmente anterior a 1608, no capítulo dedicado à capitania da Bahia de Todos os Santos, sobre a cidade da Bahia (sic) informa a respeito deste forte:
“(…) contudo se fizeram nesta baía alguns fortes e plataformas com sua artilharia, que se defende uma ocasião, a saber: (…)
O Forte de S. Alberto, na praia da Cidade, tem duas meias esperas.”[1]
À época da primeira das Invasões holandesas do Brasil (1624-1625) foi ocupado pelos invasores, estando cartografada à época da segunda invasão (1630-1654) por João Teixeira Albernaz, o velho (Mapa da Baía de Todos os Santos, 1631. Mapoteca do Itamaraty, Rio de Janeiro), onde se revela um polígono quadrangular regular com 30 palmos de lado e dois baluartes circulares nos vértices pelo lado de terra, artilhado com duas peças. Quando do assalto a Salvador em abril-maio de 1638, sob o comando do Conde Maurício de Nassau (1604-1679), BARLÉU (1974) descrevendo o assalto holandês, relata:
“(…) Ocuparam os holandeses o forte de Santo Alberto, construído de pedra, o qual tinham os portugueses abandonado. Garantiu ele o nosso campo de ser sitiado e investido da banda da praia. Mandou o Conde circunvalá-lo (…).” (op. cit., p. 62)
A atual edificação data de 1694 (GARRIDO, 1940:92), cruzando fogos com o Forte de Santo Antônio além do Carmo, de quem era contemporâneo, protegendo o ancoradouro e a aguada das embarcações em Água de Meninos. De acordo com iconografia de José António Caldas (Planta e fachada do Fortinho de S. Alberto. in: Cartas topográficas contem as plantas e prospectos das fortalezas que defendem a cidade da Bahia de Todos os Santos e seu reconcavo por mar e terra, c. 1764. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa), a sua estrutura apresentava planta no formato de um polígono heptagonal irregular, com parapeitos à barbeta. Pelo lado da entrada, o conjunto é dominado por um torreão circular de um pavimento sobre o terrapleno, contendo as dependências de serviço.
Encontra-se representado numa iconografia de Carlos Julião, sob o nome de 2. Sto. Alberto (Elevaçam e fasada que mostra em prospeto pela marinha, a cidade de Salvador, Bahia de todos os Santos, 1779. Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, Lisboa), ilustrada com os desenhos de trajes típicos femininos.
O século XIX
SOUZA (1885) observa que a Comissão “ad hoc” nomeada pelo conde da Ponte para examinar as defesas de Salvador em 1809, sobre esta fortificação, por seu pequeno desenvolvimento, considerou-a inútil estratégicamente, aconselhando a sua demolição (op. cit., p. 91, 94).
Com a vitória brasileira na Guerra da independência do Brasil (1822-1823), foi este forte quem, a 2 de julho de 1823, deu o tiro autorizando o embarque das forças do Coronel Inácio Luís Madeira de Melo (1775-1833) para Portugal (SOUZA, 1885:94). Mais tarde ficou conhecido como Forte da Lagartixa (GARRIDO, 1940:93), provavelmente devido a um tipo de canhão assim denominado à época (BARRETTO, 1958:176).
Serviu, a partir de 1855, como “oficina de fogos”, dependência do Arsenal de Guerra (CAMPOS, 1940. apud PEDRO II, 2003:163, nota 297). Foi visitado em 1859 pelo Imperador D. Pedro II (1840-1889), que registrou em seu diário de viagem:
-
“28 de Outubro – (…) Antes de voltar para casa visitei os fortes de Jequitaia e de Lagartixa. No primeiro estão os artíficies e no segundo o laboratório pirotécnico. (…) No forte da Lagartixa fazem-se cartuchos e espoletas para peças, havendo poucos trabalhadores e nenhuma máquina, que eu visse.” (PEDRO II, 2003:163)
No contexto da Questão Christie (1862-1865), o “Relatório do Estado das Fortalezas da Bahia” ao Presidente da Província, datado de 3 de agosto de 1863, dá-o como reparado (ROHAN, 1896:51), citando:
-
“(…) É de forma irregular (hexágono), cujas baterias com sete canhoneiras apresentam um plano de fogo de 290 palmos, montando sete peças, três de calibre 24 no lado da frente para o mar e quatro de 18 nos contíguos adjacentes.
- Acha-se em bom estado e pode ser considerado pronto; entretanto ressente-se da falta de plataformas para as competentes canhoneiras, cujas peças assentam hoje no mesmo solo do terrapleno, o qual, embora fosse aí nivelado e preparado de modo que parece consistente, não oferece contudo a desejada resistência para o peso e movimento das peças, está ao mesmo nível não tendo portanto o declive impediente do recuo.
- Um outro defeito resulta da atual estação do pau de bandeira no espaço que devia ser ocupado pela pilha de balas da peça vizinha, a qual, por semelhante motivo, estabelecida à direita da peça, impoz a mesma alteração em todas as outras; sendo assim que a regularidade e ordem do serviço deve sofrer pela posição das pilhas em ponto diverso do que compete ao soldado encarregado do serviço das balas cujo lugar como se sabe é à esquerda da peça respectiva.
- O depósito de pólvora desta fortaleza está condenado pela qualidade do material de sua construção (madeira), e precisa ser substituído por outro de alvenaria abobadado.
- O desentupimento da cisterna que existe no forte, é outra necessidade que cumpre executar.” (op. cit., p. 59-60)
SOUZA (1885) computa-lhe nove peças, e considera-a uma das que apresentavam melhor estado de conservação (op. cit., p. 94).
Do século XX aos nossos dias
Afastado do mar pelas obras de ampliação e modernização do porto de Salvador, em 1958 abrigava o Serviço Veterinário do Exército (BARRETTO, 1958:176). Esteve ocupado pelo Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército (PEDRO II, 2003:163, nota 297). Restaurado pela 6ª Região Militar do Exército Brasileiro, estava aberto ao público, dentro do Projeto de revitalização das Fortalezas Históricas de Salvador, da Secretaria de Cultura e Turismo em parceria com o Exército.
Para os aficcionados da telecartofilia, sua muralha de pedra com ameias ilustra um cartão telefônico da série Fortes de Salvador, emitida pela Telebahia em junho de 1998.
Notas
- Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, v. 75.
Bibliografia
- BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 418 p. il.
- BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
- FALCÃO, Edgard de Cerqueira. Relíquias da Bahia (Brasil). São Paulo: Of. Gráficas Romili e Lanzara, 1940. 508 p. il. p/b
- GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
- PEDRO II, Imperador do Brasil. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859-1860 (2ª ed.). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras e Expressões, 2003. 340 p. il.
- ROHAN, Henrique de Beaurepaire. Relatorio do Estado das Fortalezas da Bahia, pelo Coronel de Engenheiros Henrique de Beaurepaire Rohan, ao Presidente da Província da Bahia, Cons. Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, em 3 de Agosto de 1863. RIGHB. Bahia: Vol. III, nr. 7, mar/1896. p. 51-63.
- SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
Fonte/site: https://secult.salvador.ba.gov.br/wp-content/uploads/2022/placasinterpretativas/SA(SA)IT_167n-R1.pdf

